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Anil

Sou do sul do Brasil, aquele trecho do país que insiste em acreditar que janeiro faz parte do verão. Mas a verdade é que nessa época, quando a maioria de nós gostaria de apreciar uma praia, nunca se sabe o que o clima vai aprontar. Tempestades, enchentes, nuvens em quantidades industriais e… sol vira artigo de luxo. Aí lá está você, na sua casa de praia e, todas as manhãs abre um olho só e espia para ver a cor do céu… Em geral cinza, uma alegria.

Muito bem. No Mediterrâneo, onde acontece de estar a Grécia e suas inúmeras ilhas, uma certeza reina nos meses de verão: tem sol, céu azul e ventos que fazem tudo ficar agradável. Nuvem, eles esquecem o que é. Chuva, portanto, nem pensar. Sempre (espere, vou repetir) sempre os dias são lindos. E azuis. Um céu de um azul infinito que encosta num mar de azuis mil, um mais formidável que outro. Inevitável fotografar, impossível capturar aqueles tons e transparência. Mas vale a tentativa de compartilhar.

Dizem que o azul descansa. Então sente e relaxe.

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Cada um tem o seu mar.

Meu marido, nascido em Alexandria, passou os verões (escaldantes, imagino) de sua primeira infância no litoral egípcio. Mudou para a Itália, onde viveu a adolescência nas negras areias vulcânicas de Ostia. Filho de mãe grega, umas poucas vezes visitou a casa que tinha ficado meio abandonada em uma pequena ilha da Grécia chamada Leros. Veio para o Brasil ainda jovem e desde então compartilhamos a casa de praia em Santa Catarina, da família há mais de 60 anos. Mas não tem jeito, o mar dele ficou sendo a Grécia, para onde está sempre querendo voltar. Qualquer outro mar é sempre quase-tão-bom-quanto ou nem-chega-aos-pés-de…

E o meu? Meu mar tem coleção de conchas em caixas de fósforo, machucado no joelho ardendo na água salgada, nariz com hipoglós, vergonha de ainda não ter peito, vergonha de ter peito demais. Caldos, mergulhos das pedras, piquenique no farol. Meu mar é esse em que estou agora, onde passei rigorosamente todos os verões de minha vida. Assim como minha avó, com seu maiô de perninha e touca de borracha, e minha mãe, com seu biquíni de bolinha amarelinha e sua calça cigarrete.

Foi nessas areias que meus filhos fizeram seus primeiros castelos, furaram as maiores ondas e pegaram os mais ousados jacarés. Levaram pacote, ralaram joelhos nas pedras, ficaram com a cara manchada de picolé de groselha. Aqui aprenderam a tecnologia secular materna de construir vulcões e de fazer castelos de areia pingada.

Meu mar tem uma casa cheia de histórias e recordações, minha referência. Ondas de lembranças, marés de nostalgia, que deixaram suas marcas.

E o seu mar, qual é?

Hibisco.

Ruas cheias de sombreiros.

Rede que combina com o mar.

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Leros, a ilha grega

Casa de praia 2

Ler e Pescar

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“Sai de baixo dessa mesa, guri!”, chama a mãe mais com graça que zanga. “Desse jeito não sobra pudim pra você…”. A algazarra na mesa é grande, todos riem de alguma bobagem. E ele nem aí, nem para o pudim, nem para a piada – o livro está no fim, quer saber como a história termina. Faz sempre isso, quando acaba de comer, escorrega cadeira abaixo e fica lá, lendo,  pouco interessado nas conversas ao redor do almoço.

A família está passando mais um verão na casa da ilha, simples, de madeira, varanda com rede, dobradiças das persianas enferrujadas, quartos com beliches, sombreiro no quintal. Menino de apartamento em Curitiba, parece passarinho solto, para quem o melhor lugar é o galho da árvore frondosa. Da cidade, cada um pode trazer o seu essencial:  ”Tanto livro outra vez, filho? Todo esse peso? Você vai ter que carregar, lembre-se!”. E carregar, na ilha sem carro, significa 20 minutos de caminhada do barco à casa,  fato a se considerar. Mas ele leva, são as suas férias.

Os meninos não podem ser mais diferentes um do outro. Inteligências múltiplas, explicam os mais velhos. Ao seu lado, o irmão vem saltitando, arrastando sacolas com pranchas, video-game, máscara de mergulho, pés-de-pato, pistola de água. Agitado, passa os dias nas ondas, escalando os rochedos, fazendo e chutando castelos de areia, cavando buracos para chegar no Japão, colecionando conchas, pedras e carcaças de cigarras. O outro, o nosso menino, vive imerso em leituras, alma quieta, observador e introspectivo, acaba incomodando mais: “Esse menino é tão sossegado que dá nos nervos”, diz o pai.

Numa tarde quente de janeiro, lendo empoleirado nos braços frescos do sombreiro, ele olha em direção ao mar e vê uma menina. Magricela, cabelo vermelho, nem é bonita (ele está em uma idade em que não questiona a beleza das meninas. Elas são apenas… meninas), está em pé nas rochas perto da casa. Pele queimada de sol, um vestidinho azul claro e leve, ela está pescando.

Ele desce da árvore, fascinado, com vontade de fazer aquilo também, pescar é meio como ler, ato solitário e silencioso. Aproxima-se da menina, embaixo do braço o livro que até esqueceu de marcar, observa seus movimentos lentos, ignora o coração acelerado pela timidez e pergunta: ”Já pescou alguma coisa?”. A menina se volta e agora ele vê que os olhos são claros, parecem com os da avó Luzia, e ela tem sardas no nariz. Bonita? Sei lá, não enche. Ela sorri, aponta com naturalidade para um cesto cheio de peixes. Ele deposita o livro ao lado do cesto e fica ali, encantado com as cores, o brilho e textura dos pescados. Percebe que a menina se aproxima e começa a folhear o livro. Fecha logo, letra pequena, nem tem figuras. Rápido, ele diz: “Tenho outros em casa. Tenho muitos. Do que gosta?”. Ela responde que não sabe, não tem livros, leu só alguns na escolinha da ilha. Ele aproveita: “Me ensina a pescar? Te empresto meus livros”.

Ela ainda não sabe se a troca é boa, livros não são tão legais assim. Mas passam a tarde sentados na pedra, aprendendo a prender os camarões de isca que compraram na venda do Seu Zeca, a esperar a onda certa para jogar a linha, a sentir as leves fisgadas na vara, a tirar o peixe do anzol. O dia vai terminando, nosso menino feliz, pescar é tão bom quanto ler.

Fiel ao combinado, corre até a casa, escolhe no seu quarto  entre os livros deixados por 12 verões, lamenta não ter nada para meninas, acaba levando três que podem agradar. A menina espia da varanda, os olhos são verdes afinal. Bonitos? Um pacto silencioso é selado ali, eu pesco, você lê.

Pelo resto dos dias quentes de verão, a pescaria continua, o menino traz peixes todos os dias, a mãe se recusa a limpar, Seu Zeca faz esse favor. A menina traz uma irmã, dois vizinhos, um primo. Também vão pescar? “Não, eles querem emprestar livros. Pode?”. O menino percebe que estão todos guardados em caixas, difícil escolher. Pede ao pai uma estante. Organiza tudo ali e deixa que a gurizada selecione o que quer.

A temporada é longa. Muitos peixes, muitas leituras, mas chega a hora de voltar para a cidade. A essa altura, a turma interessada pelos belos livros cresceu muito. A estante é transferida para a venda do Seu Zeca. O pai coloca seus livros lá também, a mãe colabora com suas revistas e romances e uma plaquinha de madeira, onde está escrito:  Biblioteca da Ilha do Céu. Leve um livro. Leia. Aproveite. Do barco, navegando na direção de Curitiba, o menino vê a menina acenando, um livro na outra mão. Com seu vestido azul claro, cabelos vermelhos e dourados, sardas e olhos verdes. Linda.

Texto e ilustrações: Jô Mayr Bibas

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