“Sai de baixo dessa mesa mesa, guri!”, chama a mãe mais com graça que zanga. “Desse jeito não sobra pudim pra você…”. A algazarra na mesa é grande, todos riem de alguma bobagem. E ele nem aí, nem para o pudim, nem para a piada – o livro está no fim, quer saber como a história termina. Faz sempre isso, quando acaba de comer, escorrega cadeira abaixo e fica lá, lendo, pouco interessado nas conversas ao redor do almoço.
A família está passando mais um verão na casa da ilha, simples, de madeira, varanda com rede, dobradiças das persianas enferrujadas, quartos com beliches, sombreiro no quintal. Menino de apartamento em Curitiba, parece passarinho solto, para quem o melhor lugar é o galho da árvore frondosa. Da cidade, cada um pode trazer o seu essencial: ”Tanto livro outra vez, filho? Todo esse peso? Você vai ter que carregar, lembre-se!”. E carregar, na ilha sem carro, significa 20 minutos de caminhada do barco à casa, fato a se considerar. Mas ele leva, são as suas férias.
Os meninos não podem ser mais diferentes um do outro. Inteligências múltiplas, explicam os mais velhos. Ao seu lado, o irmão vem saltitando, arrastando sacolas com pranchas, video-game, máscara de mergulho, pés-de-pato, pistola de água. Agitado, passa os dias nas ondas, escalando os rochedos, fazendo e chutando castelos de areia, cavando buracos para chegar no Japão, colecionando conchas, pedras e carcaças de cigarras. O outro, o nosso menino, vive imerso em leituras, alma quieta, observador e introspectivo, acaba incomodando mais: “Esse menino é tão sossegado que dá nos nervos”, diz o pai.
Numa tarde quente de janeiro, lendo empoleirado nos braços frescos do sombreiro, ele olha em direção ao mar e vê uma menina. Magricela, cabelo vermelho, nem é bonita (ele está em uma idade em que não questiona a beleza das meninas. Elas são apenas… meninas), está em pé nas rochas perto da casa. Pele queimada de sol, um vestidinho leve e claro, ela está pescando.
Ele desce da árvore, fascinado, com vontade fazer aquilo também, pescar é meio como ler, ato solitário e silencioso. Aproxima-se da menina, embaixo do braço o livro que até esqueceu de marcar, observa seus movimentos lentos, ignora o coração acelerado pela timidez e pergunta: ”Já pescou alguma coisa?”. A menina se volta e agora ele vê que os olhos são claros, parecem com os da avó Luzia, e ela tem sardas no nariz. Bonita? Sei lá, não enche. Ela sorri, aponta com naturalidade para um cesto cheio de peixes. Ele deposita o livro ao lado do cesto e fica ali, encantado com as cores, o brilho e textura dos pescados. Percebe que a menina se aproxima e começa a folhear o livro. Fecha logo, letra pequena, nem tem figuras. Rápido, ele diz: “Tenho outros em casa. Tenho muitos. Do que gosta?”. Ela responde que não sabe, não tem livros, leu só alguns na escolinha da ilha. Ele aproveita: “Me ensina a pescar? Te empresto meus livros”.
Ela ainda não sabe se a troca é boa, livros não são tão legais assim. Mas passam a tarde sentados na pedra, aprendendo a prender os camarões de isca que compraram na venda do Seu Zeca, a esperar a onda certa para jogar a linha, a sentir as leves fisgadas na vara, a tirar o peixe do anzol. O dia vai terminando, nosso menino feliz, pescar é tão bom quanto ler.
Fiel ao combinado, corre até a casa, escolhe no seu quarto entre os livros deixados por 12 verões, lamenta não ter nada para meninas, acaba levando três que podem agradar. A menina espia da varanda, os olhos são verdes afinal. Bonitos? Um pacto silencioso é selado ali, eu pesco, você lê.
Pelo resto dos dias quentes de verão, a pescaria continua, o menino traz peixes todos os dias, a mãe se recusa a limpar, Seu Zeca faz esse favor. A menina traz uma irmã, dois vizinhos, um primo. Também vão pescar? “Não, eles querem emprestar livros. Pode?”. O menino percebe que estão todos guardados em caixas, difícil escolher. Pede ao pai uma estante. Organiza tudo ali e deixa que a gurizada selecione o que quer.
A temporada é longa. Muitos peixes, muitas leituras, mas chega a hora de voltar para a cidade. A essa altura, a turma interessada pelos belos livros cresceu muito. A estante é transferida para a venda do Seu Zeca. O pai coloca seus livros lá também, a mãe colabora com suas revistas e romances e uma plaquinha de madeira, onde está escrito: Biblioteca da Ilha do Céu. Leve um livro. Leia. Aproveite. Do barco, navegando na direção de Curitiba, o menino vê a menina acenando, um livro na outra mão. Com seu vestido azul claro, cabelos vermelhos e dourados, sardas e olhos verdes. Linda.
Texto e ilustrações: Jô Mayr Bibas
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Jô, que texto lindo, delicioso de ler! Amei!!!! Se minha filha não assinou, to mandando agora p ela assinar! hehehe!!
Como está indo o projeto?? Vai me deixando informada, tá??
Beijão!
Luiza Mallmann
decorarsustentavel.blogspot.com
Minha querida! como é bom passar por aqui e sair encantada…obrigada por proporcionar tanta “leveza”…bjs
que beleza Jô, que texto maravilhoso e quanta lição!
delicia vir aqui e poder beber dessa sua fonte sempre tão fresca e pura.
adoro seus textos.
você escreve de uma maneira tão gostosa, parabéns.
beijos amiga, até…aqui um calor insuportável!
Jô querida!!!
Tudo q vc escreve é muito gostoso de ser lido!!! Adorei!!! Bjs e ficarei no aguardo de novidades!!! Solange M M Oresten
Jô, adoreiii! Vou mostrar e ler pros meninos aqui! beijo querida
Jô, que coisa mais gostosa ler essa postagem. A gente fica com “coração de criança” e torce para o menino voltar logo para a ilha e se casar com a pescadora. Gozado isso, não é?
Muito boa a mensagem do texto. Foi uma troca salutar.
Grande abraço.
Manoel.
http://blogdoobvio.blogspot.com
Jô, vocé escreve muito bem, me deliciei.
Será que encontro livros seus nesta biblioteca?
Já pensou em escrever para crianças?
Beijos
Tereza
Meu Deus Jo, vc e uma escritora nata!!!!!! Quanta verve, quanta imaginacao, quanto amor ao escrever!!!!!!Foi vc que desenhou tambem??? E so o que falta!! Hahahahahaha Sou tua fa!!!!!!! Bjs……
Fui eu que desenhei, sim! Me diverti, mas sai tudo mais ou menos ao scannear…
Jô, tá de parabéns!
O texto ficou uma graça, as ilustrações nem se fala!
Parece que foram ficando mais expressivas à medida que você desenhava, a última da estante ficou lindíssima! =)
usou lápis aquarela ou a a tinta mesmo?
Beijo!
Lápis aquarelável. No próximo post mostro!
Ahaaaa !! bem achei q vc tinha feito os desenhos ….. e tambem escreveu essa história encantadora ??? cada dia mais orgulhosa da minha irma !!! ( ñao achei o til ) continua sendo minha ídola !! hehehe
super beijo
Jozz, finalmente a sua estória!!! E muito melhor do que eu imaginava (não que isso me surpreenda). Me peguei sorrindo ao final e inspirada pra começar o dia. PARABÉNS! Beijos
Lindo, lindo Jo!! E as ilustracoes sao muito delicadas, aquarelas de cores deliciosas que tornam tudo mais ludico e sonhador. Adorei! Tem o astral que adoraria pras minhas historinhas…
Não se anima de ilustrar alguma(s) delas(s)??? Quem sabe a gente não vai atras de publicar alguns livrinhos e tentar fazer renda pra reverter pro projeto Freguesia do Livro? Vamos amadurecer a ideia? Faz um contato qdo pensar no assunto… Se quiser te mando os textos que tenho por email. Um bejo Silviane
Silviane, se é isso que está faltando para você publicar teus textos lindos, vamos conversar!
Que maravilha, Jô! Sempre achei que a ilustração dos textos teria que ser uma coisa que nasce da mesma forma despretensiosa como nasceram os textos que escrevi: sem o “profissionalismo” de um ilustrador, entende? Me manda um email no silvianesasson@gmail.com e eu respondo te enviando os textos. Vc lê, sente se gosta de alguma coisa e a gente vai se falando. Que sabe não estamos plantando uma ideia gostosa? bjs
Que lindo Jô!
Lembrei-me da minha infância, pois gostava de atos solitários e silenciosos!
Acho que já contei isso, mas a minha mãe dizia: “Você tem certeza que quer um livro de natal?”, hehehe respondia sempre que sim!
Também adorei as ilustrações.
Bjo grande
Léia
Primeiro, eu pensei: o menino parece eu. 20 livros na mala, para uma semana na praia. 6 livros, se for um final de semana só. Por precaução. Melhor levar mais, do que menos.
Depois, eu pensei: esse menino parece eu. Um filho leitor dá mais trabalho mesmo, é sempre uma preocupação para os pais. Ele sempre está sozinho, não fala com ninguém. E nunca se sabe o que ele está pensando. Deve ter algum problema.
Depois pensei: esse menino parece eu. Um dia, vai conseguir muitos amigos através da leitura.
É um dos textos mais lindos que já li, Jô.
Posso compartilhar no meu blog? Com os créditos, claro.
Um super beijo para você.
Jô, que texto bacana! Adorei os desenhos também!
Jo, palavras não serão suficientes para tanta graça e talento. sou sua fã parabens. Beijo Bea
Jô como sempre você arrasa.
Oiiii Jô!!!!
Que lindinha essa história!!!! É sua!!!
Achei bem fofa, aliás esse blog é muito delicado!!!
Visitemo-nos sempre!!! hehe
Beijãoooo
ops, era: é sua a história????
Aliny, a história é minha, sim! Que bom que gostou.
Jo, post mais lindo desse mundo!
A história e os desenhos estão perfeitos! Adorei tudo! Parabéns!
Adorei ler tudo e fiquei encantado com a forma linda de se escrever assim!
delicia de ler, adorei!
Meu Deus, que coisa mais linda!!! O texto, a ilustração então…Ainda bem que te descobri nessa imensidão que é a internet. Eu tb sou fã do seu blog e admiro muito sua maneira de enxergar o mundo. Muito me orgulha ter você passeando lá no meu. Você já publicou algum livro? Se não, já é hora. Parabéns!!!!!
bjs querida.
Jô, o texto é real e valoroso,pois representa teu objetivo. As ilustrações, que são lindas,já me tocaram de outra maneira…bucólica, c/ dor de saudade daquilo que não terei mais. Com um passado rico de vivências, ganhamos estrutura para o hoje, como vc amiga, que nos deu esse exemplo.Avante!!!!
Bjs, Raquel.
Jo, molto bello! Anche se ho avuto qualche difficoltà con la lingua, ne ho apprezzata la musicalità e l’evocazione di scenari suggestivi.
I due ragazzi e il padre scettico all’inizio, mi hanno ricordato la figura e la storia di Matilde, di R. Dahl.
Brava! Complimenti.
Fabbroscrivano
Jô, que lindo. Me emocionou. É só acreditar na sementinha, que ela cresce e toma conta. Parece meu filho menor, quando viajamos. Enche a mochila de livros e gibis, pares de meias (nesse calor), uma cueca e esquece a escova de dentes e o pijama. Mas, para que levar roupas? Ele já leva livros.
Linda ilustração. Leve e delicada, como a história. Parabéns!
Abraços
Liiindo e inspiradíssimo …
Parabéns
Heidi
Parabéns pelo seu blog!
Texto lindo e ilustração maravilhosa, parabéns!
Bjss e uma maravilhosa quarta!!!
http://www.toutlamour.blogspot.com
Jô, como sempre você arrasa… Não sei se o Carlo e o Franco se enquadram no papel do menino ou da menina… ambos amam leitura e pescaria!!!! Bjôssss
Parabens Jo! Adorei!vou mostrar para o Leo!Vc cada dia nos surprende mais!
Eu ADOREI !!!! O Máximo parabéns, lembrei das camisetas do Snnoppy que vc pintava ! E a histórinha é uma graça dá vontade de pescar e de ler e de pescar e depois ler…….
Jô,
obrigada por sua visita e comentário no meu blog, você sabe como nós, blogueiras, ficamos felizes com isso.
O seu blog é simplesmente encantador!
As postagens, as imagens… nos fazem querer não sair daqui. Parabéns!
E você não tem ideia de como fiquei feliz em saber da sua participação com o mundo literário.
Na minha postagem de hoje mostro o meu interesse de criar uma ‘Biblioteca Comunitária’ em trabalho social que realizo mas não sei como.
Se der dê uma passadinha por lá e quem sabe você não pode me dar uma ajudinha…
E, mais uma vez, parabéns pelo blog!
Abraços,
Carol
http://www.umblogsimples.com
Jô, pelo que entendi você escreveu a estória e ilustrou também, mas não estou certa se é um livro que já foi publicado, ou não.
Bem, publicado ou não a estoria e a ilustração são lindas. Com toda certeza você tem alma de artista
[...] Comentários « Ler e pescar [...]
Jô, com vagar reli teu post. Caso ainda não saibas, és uma artista, além de escritora de histórias que emocionam.
Por favor , não pare. Juro que não fala aqui a mãe; é a leitora , antigamente voraz, encantada com o que leu e viu.
Continue, continue, continue…. bjos.
NOSSA QUE LINDO!!! Temos casa na Ilha há mais de 30 anos, biblioteca náutica com mais de 150 livros, inclusive da ex-criançada, tem também o sonho de que eles leiam mais e videogamem menos … O maior (21) tá quase lá, o pequeno(14) ainda não…Tem também o sonho de uma biblioteca e grupos de leitura… que sabe um dia… uma do céu e do mar…
Teu texto me emocionou…parabéns…
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A mãe é minha, a história é dela, mas parece que minha também. A criança que não consegue parar enquanto o livro não termina, que escorrega pra baixo da mesa (por outros motivos, talvez), que até com 23 anos tem que brigar por quantos livros vai levar numa viagem…
E sem falar de alguém por perto que sempre incentiva o mundo a ler mais um pouquinho, como sempre incentivou nós, os filhos pra sempre leitores. Essa minha mãe biblioteca.
Amo você mãe!
PS: “sardas e olhos verdes. Linda.” Sou eu, mamãe?
Sempre modesta, essa minha filha… Mas é musa, sim!
cara jo’
la storia è molto simpatica così come le illustrazioni!
in effetti mi sono sempre chiesta come mai non avevi ancora messo in pratica in questo modo il tuo talento ……che è grande!
baci
Grazia
Oi Jô! A estória é linda, os desenhos estão uma graça. Vc tá cada vez melhor! Parabéns!!! Bjs
Oi Jô, que delicia a estória, adorei ler… A ilha sempre inspira ainda mais as crianças, meu filhos a cada verão, crescem, amadurecem, aprendem, descobrem um mundo novo na Ilha do Mel. Assim como foi comigo e com meu irmão.
Faz alguns anos que minha mãe e um grupo da Ilha fez a campanha do livro, arrecadamos e mandamos muitos e bons para lá. Ele ficou na casa que a UFPR ocupava mas um certo dia retiraram a casa da UFPR fecharam a casa e os livros dentro. Os livros estão apodrecendo junto com a casa. O mesmo aconteceu com as pranchas de serigrafia que um projeto deu pras crianças. É triste mas até na Ilha a “politica” atrapalha.
Bjs
Giova
Encantei-me… vai virar livro?
Tava aqui lendo e, como as crianças pescando, sentindo a brisa do mar no rosto.
As ilustrações são doces, como deve ser história para crianças( que não só gostam de ler, mas de ver!).
Fiquei curiosa: baseada em fatos reais?…rs
Adorável Jô!
Sua inciativa de estímulo à leitura, também!
Abraço!
Obrigada por compartilhar conosco essa história tão singela e tão rica. Meu sábado ficou mais colorido e você ganhou mais uma fã a incentivar algum tipo de publicação. Pense nisso com carinho, de verdade.
Beijo grande,
Lu
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